O SEQUESTRO DA LAMENTAÇÃO

Para começar, uma banda e uma música empolgante. Em seguida, uma moça bastante simpática pega o microfone e se dirige para o povo, dizendo: “Chegou o seu dia! Você é mais que vencedor! Todas as bênçãos que você determinar vão acontecer! Onde você colocar suas mãos prosperará! Você é filho do Rei! Você é filha do Rei! Nada pode abalar vocês! Nada pode derrubá-los! Chegou a hora da conquista! Alegrem-se! É tempo de restituição!”. E depois de um solo frenético de guitarra, ouve-se apenas um grito: “Sai do chãããão!”. Então, todos de uma só vez começam a pular e num só coro cantam clichês de conquista, de vitória, de restituição e por aí vai. Nesses cultos não há tempo nem espaço para a confissão de nossas mazelas ou de nossos dilemas. Só há tempo e espaço para a afirmação de nossas aparentes virtudes e certezas. Realmente sequestramos a lamentação de nossos cultos.

E por quê? Por um motivo bastante óbvio: medo. A lamentação é aterrorizante, causa pavor. Ela desestabiliza nossos pressupostos teológicos, nos humilha, nos constrange, afinal nos obriga a dizer o que realmente estamos sentindo e pensando. A lamentação incomoda muito, machuca o ego, põe em xeque a nossa inteligência e assusta o outro, uma vez que desestabiliza também as crenças dos que ouvem o lamento. A lamentação é a exposição das vísceras que inutilmente tentamos esconder. Ela é suja, vem carregada de dúvidas, de questões perturbadoras, e, como somos demasiado assépticos, sempre tentamos nos livrar dela.

Como se não bastasse, além de ser terrível e suja, a lamentação também é bíblica. As Escrituras estão repletas de lamentações e de salmos de lamentações. A Bíblia tem um livro que se chama “Lamentações”! O que isso significa? Que não dá para matar e enterrar a lamentação de uma vez por todas. Ela sobrevive a todas as nossas artimanhas triunfalistas, assépticas e pseudoteológicas.

A lamentação é o contrário de uma oração “bonitinha”, politicamente correta. Ela é feia, melancólica, questionadora e às vezes chega a ser quase petulante. Mas não confunda lamentação com murmuração! A murmuração é uma oração vil, sempre presente na boca de um incrédulo, de um descrente. A murmuração é a afirmação de uma fé que se perdeu; por isso não passa de verborragia agressiva, apóstata e irremediavelmente revoltada contra a vontade soberana de Deus. Na murmuração, não há amor nem fé, só ressentimento, ódio de Deus, ofensa barata e comparações gratuitas (Ex 15.24; 16.3).

É bem verdade que a lamentação é uma oração feia, mas, diferente da murmuração, não é vil. Quer saber onde ela está? Procure-a apenas na boca de um crente que ama a Deus sobre todas as coisas. A lamentação jamais poderia estar na boca de alguém que perdeu a fé. Por outro lado, ela é sempre a confissão de alguém que, embora continue crendo e amando a Deus, tem um dilema que não pode mais ser escondido, nem jogado para debaixo do tapete. Lamentação, portanto, é coisa de crente e não de incrédulo; é coisa de gente piedosa, mas também de gente humana demasiadamente humana.

Jesus lamentou. No momento mais doloroso, mais humilhante e vexatório de sua vida, ele não lembrou de Deuteronômio 28, mas de um cântico de lamentação, escrito por Davi, em Salmo 22, que começa assim: “Deus meu! Deus meu! Por que me abandonaste?” (Mc 15.34). Note que nem Jesus nem Davi começam suas lamentações assim, de chofre: “Por que me abandonaste?”. Veja, antes de colocar para fora o dilema que perturba e constrange, eles dizem “Deus meu! Deus meu!”, e isso faz toda a diferença. Eles não se tornaram ateus, nem perderam a fé! As lamentações de Davi e de Jesus são totalmente construídas num contexto de amor e fé. Aquele que pergunta pelo abandono de Deus primeiro confessa que Deus é o seu Deus! Não se começa reclamando, questionando ou blasfemando. A lamentação começa com amor e adoração, com o reconhecimento da grandeza de Deus. O fato é que ela passa da adoração ao dilema, e é o dilema que a gente não suporta.

Lembro-me de uma senhora que, ao voltar da igreja para a sua casa, encontrou na sarjeta seu filho baleado da cabeça aos pés. Na época, ela me procurou aos prantos e disse coisas que me perturbaram muito. Não esqueço do momento em que ela disse com gritos e lágrimas: “Meu Deus, onde estava o Senhor? Por que meu filho morreu assim? Se pudesse te ver, Senhor, te daria um soco na cara!”. Isso era insuportável de ouvir. Confesso que fiquei constrangido, minha vontade era dizer: “Calma! Não fale isso! Não blasfeme!”, porém algo mais forte do que minha assepsia me fez apenas abraça-la. Mas ela rejeitou o meu abraço e continuou vociferando contra Deus. Fiquei assustado, sem saber o que fazer, mas não demorou muito e aquela mulher exauriu-se, perdeu as forças nas pernas e caiu de joelhos. Depois de um pequeno instante silencioso, ouvi sua oração terminar assim: “Meu Deus, me perdoa! Por que falei assim com o Senhor? Te amo mais do que tudo nessa vida! Foi o Senhor que me deu esse filho e é para o Senhor que ele voltou! Louvado seja o teu nome!”.

Deus nos deu a lamentação para nos livrar da incredulidade e do cinismo. Nenhuma pergunta, por mais constrangedora e perturbadora que seja, seria capaz de assustar ou magoar a Deus, que, como disse Agostinho, “conhece os abismos da consciência humana”. Fique tranquilo, Deus não se escandaliza com nossos dilemas. Sinceramente, não há nada que você possa dizer para ele que cause nele espanto. Agora, o nosso próximo e o próximo de nosso próximo, que somos nós mesmos, não suportam a confissão do dilema. Por quê? Medo. Medo de blasfemar, medo de perder a fé, medo de parecer com um incrédulo, medo de não ser compreendido, medo, medo, medo…

Afinal, de onde vem tanto medo? Certamente não vem de Deus. O Deus da cruz não sequestrou a lamentação. Pelo contrário, foi ele quem nos deu a lamentação. Mas o que fizemos com ela? Sequestramos, e o pior de tudo é que não estamos interessados em seu resgate. Não queremos sua liberdade. Na verdade, se pudéssemos mataríamos e enterraríamos nossos lamentos de uma vez por todas. Mas isso é impossível. Um lamento nunca morre. Sua existência está intimamente ligada às razões do coração, e nenhum homem ou mulher, anjo ou demônio, por mais poderosos que sejam, podem destruir o coração e suas razões. É verdade, sequestramos a lamentação. Não ouvimos mais o seu canto nem o seu tom melancólico em nossa liturgia, mas ela ainda está aqui, bem viva dentro de nós, em nossos dilemas. Até quando, meu Deus, manteremos nosso lamento aprisionado no cativeiro de nossos medos?

Köln, 06.02.12

21 comentários sobre “O SEQUESTRO DA LAMENTAÇÃO

  1. Parabéns Jonas!

    Que Deus nos ajude e traga o ensino do verdadeiro culto ao Eterno, que o grito maior seja o de um coração contrito e quebrantado …

  2. Olá Jonas …Belo Texto. Apenas não vamos esqueçer que a alegria e a motivação também fazem parte da história do Cristianismo .
    Verdade é que o primeiro milagre de Jesus aconteceu em um casamento , em meio à festas e gritos de jubilo. O grande segredo é encontramos o equilíbrio em meio a extremos desequilibrados. O mestere Jesus sempre soube motivar e em meio à palavras de esperança conduziu o seu povo aos pés da Crus
    Nao retiraremos a alegria dos cultos ! Viva nossa liberdade e gloria a Deus por nossas aflições … Deus te abençoes

  3. É mano..

    E essa alegria triunfalista vendida pelo mercado gospel atinge em cheio as igrejas por onde passei e onde estou. Ela é ainda corroborada pela “santidade” fundamentalista.

    Olhar para o casal mais santo e perfeito sentado no banco ao lado me força a “recolher as minhas vísceras” e esquecer essa história de ser um pecador. Sou forçado tanto pelo discurso (principalmente o musical, eu diria) quanto pelos “exemplos” a me mostrar perfeito, contrariando Mateus 9:12.

    Ser o que perde, o fraco, o disforme é a senha, mas criamos regras quase infalíveis para impossibilitar sua proferição.

    Obrigado pelo texto, vai me ajudar com a minha galera.

    Abração,
    T3

  4. Juninho, Juninho…poucos são os dispostos a dar ouvidos à voz dos aflitos. Ainda bem que você e a Fonte de Sicar fazem parte destes poucos. Seu texto me deixou sem fôlego, mas me deixou aliviada ao saber que não sou herege ou sirvo de mau exemplo cristão quando jogo a toalha, quando enlouqueço em diálogos internos e quando preciso do colo do Pai, ainda que seja para chorar o abandono Dele (que eu penso ser dele). Tenho fugido dos cultos que incitam ao êxtase religioso porque preciso do silêncio que provoca esse meu derramar de mim mesma, e que não é muito bem visto pelo mundo positivista evangeliquês porque, como você disse, não é asséptico, fede mesmo. Obrigada…você não tem ideia do que este texto provocou em mim… ah, tem sim, você bem sabe o efeito devastador que suas preleções fazem na minha alma (rs). Deus te abençoe! Te amo

  5. Excelente texto!!! Esta é uma das partes do Evangelho que as igrejas estão abandonando e é vital para o conforto espiritual neste mundo de tribulações. Um abraço, meu irmão.

  6. Texto edificante! Com um turbilhão de influências culturais e (pseudo)teológicas enfatizando que somos vencedores (ou devemos ser) a todo momento, parece que é constituído um caráter introspectivo – no indivíduo, nas liturgias, na sociedade.

    Somos tímidos pra lamentar, mesmo o sentimento não fugindo de nós…

    É preciso o resgate da Lamentação enquanto uma virtude bíblica…

    Mais uma de tantas que andam em falta em nossos tempos tão “avançados e modernos”

    Abraço…

    • Este método seria educativo. Entretanto, como você disse, temos um currículo que vem de cima para baixo e todo o ensino pautado em uma estrutura totalmente fechada. É por isso que não dá para falar em educação ou ensino. Temos doutrinas. E não poderia ser diferente em uma sociedade pautada num modelo em que se deposita a liberdade de governo nas mãos de grupos que supostamente sabem o que é melhor para todos . É uma estrutura cristã, política, corporativa e em última instância social. O que são os professores de ensino fundamental (infantil, médio e muitas vezes universitário), eclesiásticos, governantes, gestores, etc? Por uma questão de ser politicamente corretos, falamos em educação e aprendizagem. Seria muito feio mostrar como as pessoas depositam suas inteligências (e liberdades) em power points. E eu não falo que existam Grandes Inquisidores (o do Dostoieviski mesmo) pipocando por aí. O pessoal do power point é fruto dessa estrutura e só a repete inconscientemente. Esse é um assunto que dá muito pano pra manga. Gostaria de bater esse papo com você!

  7. Tocante! Temos falhado muito nisso. Ele sabe que somos pó e é compassivo.
    “Há pouco choro nos nossos cultos.” (Richard Wurmbrand, missionário torturado pelos comunistas)

  8. É bom lembrar quem somos…humanos, quantas vezes entramos nas igrejas e não temos espaço durante o culto para nos derramar diante do Senhor, deixando ali o nosso fardo, porque os “super espirituais” nos constrangem, quando o que precisamos é apenas colocar a cabeça no peito de Jesus e chorar nossas dores e sermos por Ele consolados.

  9. Caro Jonas,
    Adorei seu texto, e lendo seu texto, percebi que a lamentação tbm está presente em Holderlin e Nietzsche, onde um reconhece e lamenta (Holderlin), e outro reconhece a importância da lamentação, mais ignora (Nietszche)…
    O amor para um poeta como Holderlin é fundamental , isso na verdade demonstra a superioridade do cristianismo que ele tanto afirmava, pois o amor é maior que tudo, sendo assim, o cristianismo equilibra o individuo e essa noção de equilíbrio fica evidente no hiperion, onde mudanças radicais que ocorre durante o texto demonstram oscilação do indivíduo entre a exaltação do eu, e noutro momento a certeza do fracasso, da miséria, hoje descreveríamos este sujeito usando a expressão popular, “um sujeito de lua” e acredito que impressão que fica nessas afirmações é que a oscilação é fundamental, mas, é mais fundamental ainda que se reconheça a lamentação, não apenas a superioridade e a certeza de si….
    Nietzsche no Ecce Homo, e em suas brigas com Wagner tbm mostra a certeza de si (na vdd ele só faz isso…rs), mais acompanhando de perto (embora nunca fale), reconhecia a importância desses momentos de lamento, o cômico e o trágico, a oscilação tbm presente…
    Acho que a lamentação que ele deixou de abraçar e levantar bandeira romperia com a ilusão nietzschiana onde todos são descritos como vitoriosos, mais na verdade estão plenamente derrotados e perdidos…
    Os dois, Holderlin e Nietzsche, ficaram malucos, Nietszche morre demente, talvez por reconhecer, mais não lamentar o que sabia, e Holderlin, acho que superou pela sua fé e a habilidade de lamentar…
    E ai mestre, como vc está?
    Sdd de vc…

  10. Pingback: Destaques de Fevereiro/2012 | Voltemos Ao Evangelho

  11. Texto muito pontual. Estarei postando no meu blog, com os devidos créditos. Fico muito feliz por ter encontrado conteúdo de qualidade na internet. Continue sendo usado por Deus para nos fazer (re)pensar a fé cristã em dias tão difíceis.

  12. Pingback: O Sequestro da Lamentação | Blog do Zé Bruno

  13. Pr. Jonas, parabéns meu caro pelo texto acima. Infelizmente por omissão ou por permissão o diabo tem sequestrado em muito o povo de Deus. Mas como você mesmo disse, esses sequestros acontecem por medo. Medo do que o outro irá pensar ou medo de nós mesmos. Que voltemos ao Verdadeiro Evangelho sem Maquiagem.

    Abraço

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