TEOLOGIA: A LOUCA DA CASA

No semestre de inverno de 1899 e 1900, o último grande representante da teologia liberal, Adolf von Harnack, proferiu sua famosa série de dezesseis conferências sobre a “A essência do cristianismo”, na Universidade de Berlim. Essas palestras foram recentemente traduzidas para o português, pela editora Reflexão, sob o título “O que é cristianismo?”. Sem dúvida, trata-se de um conjunto de documentos dos mais importantes e definidores do modus operandi do liberalismo teológico do final do século XIX.

Acredito que esse modus operandi é basicamente marcado pela condenação e eliminação da apologética e da filosofia da religião. Duas disciplinas que eram consideradas até então como imprescindíveis para o bom exercício da teologia. Um exemplo emblemático dessa perspectiva pode ser visto nas palavras que Harnack proferiu na abertura de sua primeira conferência:

A pergunta ‘o que é cristianismo?’ só pode ser respondida em sentido histórico, isto é, pela ciência histórica e pela experiência adquirida na vida ao longo dos anos. Ficam, assim, excluídas as questões levantadas pelos apologistas e pelos filósofos da religião.

Qual a razão dessa condenação? Qual o motivo da aversão à apologética e à filosofia da religião? Essa condenação e aversão é fruto de uma visão de ciência que acredita ser possível excluir elementos que ameaçam a suposta imparcialidade ou neutralidade acadêmica e científica. Em outras palavras, a exclusão da apologética e da filosofia da religião é resultado de uma crença de que é possível fazer teologia sem pressupostos religiosos.

Essa crença é bastante coerente com o “espírito de época” em que Harnack vivia. No final do século XIX, o positivismo representava uma concepção científica quase hegemônica na Alemanha. Nas diversas disciplinas, predominava o seguinte lema: “Fatos empíricos, nada de especulação e conceitos vazios”. A perspectiva positivista dos “fatos” exigia a eliminação de toda especulação que presumisse o conhecimento das verdadeiras causas dos fenômenos — como é o caso da “teologia clássica”, por exemplo — em detrimento da pesquisa dos fenômenos e de suas relações com as leis naturais.

Outro dado importante é que as “ciências da natureza” (física, química, biologia, etc.) gozavam do status de modelo de “ciência”. Portanto, qualquer disciplina que pretendesse ser científica tinha de investigar o seu “objeto” segundo o método das “ciências da natureza”, ou seja, tinha de investigá-lo a partir da esfera do cientificismo. Um exemplo dessa atitude é a obra Psicologia Fisiológica, de Wilhelm Wundt, mais conhecido como o fundador do primeiro laboratório de psicologia experimental, em Leipzig, em 1879, e que estabeleceu o método da física como o mais apropriado para o concurso da psicologia.

De fato, essa subserviência das “ciências do espírito” (história, psicologia, filosofia, teologia, etc.) às “ciências da natureza” representa a grande tendência presente no final do século XIX. Ou seja, para que disciplinas como a teologia, a história ou a psicologia pudessem ser consideradas como “ciência”, o objeto de estudo de tais disciplinas deveria ser quantificado e submetido a métodos de análise e observação das leis empíricas.

Foi essa subserviência que transformou a teologia numa espécie de “louca da casa”. Veja, na casa das “ciências” (a Universidade), a teologia sobrevive como que aprisionada num sótão, escondida de tudo e de todos (ao menos, tem presença garantida na biblioteca!). E poderia ser diferente? Ela é louca! Vive falando de realidades transcendentes, de homens que andam sobre as águas, sobre a ressurreição de mortos, sobre o nascimento virginal, a vida eterna e etc. Temas considerados pela “ciência” como absurdos. Então, uma vez tachada de louca, só lhe restou aceitar sua condição de insanidade. Não é mesmo?

O problema é que se a louca da casa aceitou realmente tal destino, não aceitou de qualquer jeito. É verdade que, por um lado, ela ficou de fora olhando as outras disciplinas atuando na sociedade, mas, por outro, para não sumir de vez, marcou presença nos “seminários teológicos”, que, por sua vez, têm o justo e necessário objetivo de formar missionários e pastores para a igreja.

Porém, eis que surge, em terras brasileiras, uma “luzinha” no fundo da caverna — mas no fundo mesmo! E essa “luzinha” tem um nome curioso, um nome aparentemente mais palatável para o gosto dos que vivem na casa das ciências: chama-se de as “ciências da religião”. Nesse pequeno espaço, cedido por algumas poucas instituições “religiosas”, a teologia de certo modo tem falado. Mas a que preço? Ao preço de falar sem ser apologética, de ter que abrir mão — sob pena de voltar para o sótão! — da necessidade de sistemas filosófico-religiosos mais consistentes. Ou seja, a louca da casa pode sair do sótão, mas terá de usar sempre a camisa de força da economia, da sociologia, da história, da psicologia, etc. Será que algum dia a teologia voltará a falar por si? Que dureza, ein?!

“Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens” 1Co 1.25

29.06.2010

14 comentários sobre “TEOLOGIA: A LOUCA DA CASA

  1. Vc escreveu uma coisa importante já que paradoxalmente o pessoal do meu curso surtava quando falava que fazia teologia e estava prestes a me formar em “Ciências da Atividade Física”…. vou mandar eles pra cá !!!Antes tarde, né ?! Luzinha é pequena mas esperamos que se torne algo grandioso e bastante reluzente.Bjo e continue assim ! Deus abençoe !!

  2. Great Sir Jonas Von Madureira!Muito interessante sua análise da telogia como a “louca da casa”. De fato, creio que este é um problema sério que precisamos analisar a luz da história – como vocês fez brevemente – e também iniciar um diálogo a fim de que a teologia cristã pense em retomar seu lugar dentro do debate público. Penso que uma possível resposta a este problema seja trazer novamente as discussões a idéia de uma “cosmovisão cristã”.Abraços,Dani Grubba

  3. Olá Jonas, belo post, parabéns.Senti falta do All Star e da frase divertida que faziam parte de seu blog! Dava mais personalidade.Fica a dica.Um abraço.

  4. Eu já não gostava do All Star não. Ficou muito… como direi? “Jovem”. Hahahahah! Sou rodrigueana nesse ponto: perguntaram ao Nelson Rodrigues que conselho ele daria aos jovens, e ele — Cresçam, cresçam!Abração! 😀

  5. Olá Pr. Jonas .Sou da igreja do Lúcio Ribeiro, seu aluno no Servos.Tenho lido suas postagens e sido muito abençoado. Onde é sua igreja ? Gostaria de combinar de passar lá com alguns jovens da nossa church.Um grande abraço !Pedro.

  6. Anônimo e Norma,e agora, ein?! Qué que eu faço??? rs Que dilema! Quem me conhece sabe que só uso All Star… Quem não me conhece não sabe que só uso All Star… kkk Bom, com All Star ou sem All Star o que vale é o conteúdo, né? ;-)Abraços! rs

  7. Há muito tempo não lia um post bem escrito, bem fundamentado e criativo acerca da tão vituperada, mal-compreendida, mal-falada, difamada, ignorada teologia liberal, por parte dos teólogos apologetas de plantão(sem que se fique a dizer o “mais do mesmo”). Até porque, a maioria que vive a falar mal da teologia liberal nunca leu um livro inteiro sequer desses pensadores oitocentistas. talvez por isso mesmo se diga tanta asneira. Falo como um pastor-teólogo de corte evangelical… antes que me batam. Parabéns Jonas!

  8. Ótimo texto… Bom saber que ainda há quem se preocupe com tal tema, amplamente defendido por uns que na sua maioria não tem profundidade suficiente para fazê-lo, assustadoramente combatido por outros que não tem nem noção do que dizem (a teologia já foi considerada em alguns segmentos como “coisa do diabo”)e simplesmente ignorada por uma grande parte dos que deveriam conhecê-la…Ah belo blog… Estarei te seguindo.

  9. Uma bela e concisa manifestação apologética do fundamentalismo norteamericano. Só que “A louca da casa” saiu a passear e parece que não quer voltar mais. Prefere os braços das “Ciências Harnackianas” às amarras “McIntireanas”.

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