PENSADOR COSMÉTICO

A subversão toma conta dos ossos, da carne, da pele, do cérebro e da língua dos pensadores que têm a inclinação para perturbar, desconstruir e transformar a ordem estabelecida. Um pensador insatisfeito com a ordem é sempre um pensador subversivo em potencial. Pois tudo o que um pensador subversivo é e faz está plenamente tomado da insatisfação com relação à suposta crença na ordem do “estado de coisas”. E é essa insatisfação que o faz ceder a irresistível tentação de mostrar o caos de todas as estruturas de pensamento, inclusive, daquelas que se dizem livres. Assim, o pensador subversivo é sempre o exato oposto do tipo “livre pensador”.

O livre pensador não é subversivo, como ele pensa que é. Na verdade, ele é um pensador cosmético. Antes que você diga: “Afinal, que absurdo é esse?”, lembre-se de que uma das acepções da palavra cosmos, em grego, é “ordem”. Para os gregos, cosmos é tudo o que ornamenta, embeleza, organiza, oculta ou esconde o caos. Daí “cosmético” ser o adjetivo mais apropriado para designar os produtos de beleza que prometem esconder o caos de rostos e de peles femininas ou masculinas. Nesse sentido, um livre pensador é um maquiador da realidade. Em contrapartida, tal como o pensador subversivo, ele também vê e sabe que o caos está aí, pois ninguém está completamente livre do caos, não é mesmo? Porém, como carece de caráter e sinceridade, o livre pensador acha melhor negar e ocultar a realidade. Que realidade? A realidade de que ele mesmo sabe que não é tão livre assim para pensar. Para livres pensadores, o condicionamento do pensamento é sempre visto como algo aprisionador e destrutivo. Por isso, o argumento que o livre pensador usa é aquele mesmo argumento que os ateus sempre recorrem quando querem opor o pensamento à religião: “dogmas aprisionam o pensamento”. Não é à toa que os livres pensadores se dizem livres justamente porque não se veem presos a dogmas, certo?

Porém, não tenha dúvida, o livre pensador não é sincero nem com ele nem com seu povo. A propósito, dizem que a palavra “sincero” significa etimologicamente “sem cera”. Os que acreditam nessa etimologia argumentam que, na antiga Roma, os restauradores de esculturas inventaram uma cera que ajudava na preservação da boa aparência das esculturas desgastadas com o tempo. Um dos desgastes mais frequentes eram as rachaduras, e para escondê-las o restaurador usava uma cera que era capaz de cobrir as fissuras da escultura. Contudo, quando o sol batia era plenamente possível enxergar através das ceras as rachaduras que se tentava inutilmente ocultar. Portanto, sinceridade é a atitude de não mais tentarmos esconder o que não mais conseguimos esconder. É assim que essa etimologia explica o motivo pelo qual usamos o adjetivo “sincero” apenas para qualificar aquilo que de fato é.

Por que acuso os livres pensadores de falta de sinceridade? Simplesmente porque não existem pensamentos livres. O que de fato existe é um fluxo ininterrupto de pensamentos dos quais não temos o menor controle. Tudo o que pensamos é sempre resultado de uma série de adesões a pressupostos que somos obrigados a assumir como axiomáticos se queremos ser no mínimo verdadeiros para nós mesmos. Um livre pensador cerra o galho em que está sentado justamente porque acredita naquela historinha iluminista de que é possível analisar o mundo sem participar dele, ou seja, de que é possível e necessário o distanciamento existencial do objeto de análise. Pessoal, sempre que falamos do nosso mundo falamos de dentro dele, nunca de fora. Por isso, a pergunta certa é “Sabemos em que mundo vivemos?”. Tem uns caras que gostam de bancar de subversivos, mas não passam de pura cosmética. Eles se acham livres e subversivos só porque não acreditam em dogmas. Pobres pensadores, pois não enxergam seus próprios dogmas. Quem disse que não é dogmático o “Diga não aos dogmas!”?

O pior de tudo é que o livre pensador se acha subversivo, livre, libertador, mas na verdade ainda não se deu conta do quanto é escravo de seus pressupostos. Que contradição! Para sua infelicidade ou vexame, ele ainda não percebeu que suas opções intelectuais são como meninos carolas, fiéis em demasia aos seus vigários pressupostos. Agora, qual é o motivo da maquiagem? Por que livres pensadores escondem que têm seus dogmas? Por que têm tanto medo de colocar as cartas na mesa? Qual a razão da ocultação de suas doutrinas tão cristalizadas e tão vistas como inerrantes? Por que afirmar que são tão livres quando, na verdade, estão tão presos às estruturas dogmáticas do pensamento?

É por essas e tantas outras razões que acredito que assumir os pressupostos é uma virtude, escondê-los é malandragem.

13 comentários sobre “PENSADOR COSMÉTICO

  1. O “livre” pensador também tem outro defeito: calcar sua liberdade no desprezo aos demais pensadores. Afinal, deve achar algo totalmente sem graça assumir sua dívida intelectual para com aqueles que vieram antes dele. Por isso os pensadores modernos, obcecados com esse tipo de “liberdade”, vivem mais de destruir o pensamento alheio que de exaltar as verdades descobertas por outros, nas quais obrigatoriamente se debruça para enxergar o mundo.

  2. Pr. Jonas, texto muito, muito bom!O livre-pensador crê no pressuposto de que não há pressuposto, emitindo e alardeando-o o tempo todo. Além de malandragem tem uma grande dose de cegueira também, pois não está a ver que mal consegue se equilibrar na plataforma e teima em ir para a corda-bamba [rsrs].Grande abraço!Cristo o abençoe!

  3. Esse, como outros, pode ir para o Blog? Ainda hoje eu relia Dooyweerd dizendo: “Tão logo buscamos penetrar à raiz dessas concepções fundamentalmente distintas [a falta de unidade de sentido necessária para um fundamento comum das filosofias e do pensamento autônomo], somos confrontados com uma diferença fundamental de pressuposições que ultrapassa os limites do pensamento teórico. Em última análise, essas mesmas pressuposições determinam o sentido atribuído à autonomia […]…nenhuma ciência é capaz de examinar a realidade empírica plena dos eventos”(No Crepúsculo do Pensamento, p. 49, 145)Se você me permite, Jonas, é preciso dizer que os livres-pensadores precisam, na liguagem de G. Fourez via Bachelard, “descer ao porão” para descobrir e assumir, sinceramente, seus pressupostos. Por isso, concordo contigo, os caras não são verdadeiros, antes, caem no “auto-engando”. Julgando-se sábios, tornaram-se loucos.Os livres-pensadores deveriam se dedicar um pouquinha mais à filosofia, não é, Jonas?Forte abraço, meu brother.Gaspar de Souza

  4. Meus amigos, Norma, Paulo Brasil, Jorge e Gaspar,é muito bom contar com a leitura de vocês. Sem dúvida, vocês enriquecem este blog com seus comentários!Gaspar e Jorge (via Facebook),É claro que podem usar qualquer texto que posto aqui!Norma,gostei de sua observação. Pelo visto, não falta aos “livres” pensadores só sinceridade, mas também humildade, certo? rsGaspar,sem dúvida, qualquer estudo mais cuidadoso da filosofia, principalmente da história da filosofia, seria suficiente para levar qualquer inciante dos estudos filosóficos a abortar qualquer tentativa absurda de construir um pensamento livre de pressupostos. Concordo com você, ainda falta muito estudo da autêntica filosofia entre os “livres” pensadores…Um abraço para todos vocês!

  5. Ótimo texto, Jonas!No meio evangélico, os moderninhos dizem que pensam “fora da caixa” ou “fora da cerca”. Vivendo assim pulando as cercas eles acabam na lama…Eles são “livres” pensadores segundo algum filósofo que detestava o cristianismo.Existe até faculdade teológica com esse tema furado de “pensamento livre”…

  6. Pegando um gancho no comentário do Gutierres, é interessante notar que esses camaradas que acreditam pensar “fora da caixa” acabam resgantando conceitos ultrapassados do liberalismo teológico, conceitos que já sabemos serem cheios de pressupostos, como se fossem a última grande descoberta do momento. E pior, como bem disse o Jonas, são malandros que escondem seus dogmas sob o discurso de pretensa liberdade.

  7. “É por essas e tantas outras razões que acredito que assumir os pressupostos é uma virtude, escondê-los é malandragem.”Na verdade, Jonas, a única possibilidade racional honesta para quem não quer pressupostos é o ceticismo. Mas um ceticismo coerente. O que implicará em silêncio absoluto ou, no máximo, em perguntas sem nem mesmo sombra de resposta. Eu respeitaria um tal que assim vivesse.Falando em subversão, é por isso que amo chamar de fé a crença destes pensadores todos em seus axiomas.NEle,Roberto

  8. Kharis kai eireneO problema do pensador subversivo é que ele abandona um pressuposto e abraça um outro, mas sempre se considera neutro. Ele também se põe a contestar os pressupostos da teoria combatida, mas nunca critica os fundamentos de seu próprio pressuposto. Afinal, ele é um dogmático. Abandona um dogmatismo, mas abraça outro.

  9. Olá, professor!O seu artigo ilustra muito bem o contexto eclético em que estamos envolvidos…Um imenso caldeirão com uma sopa eclética cujo ingredientes paralisam o esforço humano de pensar. E os dogmas? Quem não os tem? Liberdade… quem a tem?Gostei muito da reflexão!Estou por aqui.Abraço, Luciana.

  10. Wow! Estou apaixonada pelo seu blog, principalmente por este post..Por vezes estou agindo como o livre pensador, guardando pra mim meus pressupostos, por julgá-los talvez obscuros pra outros.. mto bom esse texto! Abraçõs, sua ávida leitora,Bárbara

  11. Quem é o livre senão escravo de seus pensamentos, cerrados em si mesmo; quem é pensador senão escravo da liberdade. Sou um pensador livre, escravo da liberdade e preso em meus pressupostos. Obrigado Mestre pela reflexão.

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