CALMA!

Quem tem ouvidos ouça…
(Ap 2.7)

Antes, bem-aventurados são os que ouvem a palavra de Deus…
(Lc 11.28)

Era uma noite de quinta-feira, bastante chuvosa. Tinha acabado de deixar minha noiva — hoje minha esposa — na casa de seus pais. Embora a pista estivesse bastante molhada, o trânsito não estava tão ruim. Quando estava prestes a me aproximar da Avenida Paulista, do nada, surgiu uma Mercedes-Benz Classe A, em alta velocidade, e bateu em meu carro. A única coisa que lembro depois disso foi meu carro rodando, rodando, completamente desgovernado, até acertar em cheio a parede de um prédio comercial.

Apesar de já haver passado alguns anos desde que tudo isso aconteceu, a imagem daquele acidente ainda está muito viva em minha memória. Bom, se você já passou por isso, sabe como é tenebroso ver sua vida entregue a processos em que não se pode fazer absolutamente nada. Mas, voltando ao acidente, recordo-me de um homem batendo na janela de meu carro, pedindo para que eu destravasse a porta. Ainda estava meio desacordado, e com certa dificuldade encontrei a trava. Foi aí que percebi que ele estava tentando me tirar de lá.

Quando me dei conta do que tinha acontecido, disparei a falar, sem controle, sem o menor domínio próprio. O nervosismo era tanto que mal podia ouvir o homem que estava tentando me socorrer. Ele queria falar comigo de todas as formas, mas eu não deixava. O susto foi tão aterrador que o medo tomou conta de minha língua. Desembestei a falar, melhor, a tagarelar sem parar. O rapaz que me socorreu precisou me dizer: “Calma!”. Foi quando me dei conta de que estava falando demais, e que precisava ouvir o que ele estava dizendo.

Aquele homem, por incrível que pareça, era médico, e estava passando por ali justamente no momento em que tudo aconteceu. Ele testemunhou tudo de perto. Quando me viu, não pensou duas vezes em me prestar socorro, enquanto o Classe A covardemente fugia sem deixar pistas. Seu objetivo era um só — socorrer-me —, mas o meu estado de choque era tão irracional que, em vez de ficar quieto e apenas ouvi-lo, eu só falava. Apesar de tudo isso, foi a intervenção daquele médico que interrompeu minha tagarelice, que me acordou do choque daquele estado irracional tão típico das pessoas que vivem jogadas em processos dos quais elas não têm o menor controle. O pedido de calma, ao mesmo tempo que inibiu minha fala, curou minha momentânea surdez. Afinal, para socorrer-me, ele precisava falar comigo, e eu precisava apenas ouvi-lo.

Às vezes, quando percebemos que não temos o controle sobre a maior parte dos processos da vida, desenvolvemos simultaneamente um tipo de surdez e de tagarelice desconcertantes. Você já parou para pensar no contrassenso que é um surdo tagarela? Contrassenso porque a lei da natureza nos diz que se você não ouve, você não fala. A surdez, portanto, inibe a fala. Por um motivo aparentemente simples: o surdo não consegue se ouvir. Se você nunca pensou nisso, pense agora. Para nos comunicarmos não basta ouvirmos a voz do outro, temos também que ouvir nossa própria voz, entender o que estamos dizendo. Pois é, acontece que essa nossa mania de falar sem parar, e sem pensar no que falamos, nos torna incapazes de ouvir não apenas os outros, mas também a nós mesmos. Falamos sem ouvir o que falamos e, o que é pior, não ouvimos aqueles a quem falamos.

Calma! Deixe-me explicar melhor o que estou dizendo. É claro que é necessário e até mesmo saudável desabafar, vomitar nossos podres, lamentar nossas tragédias e sofrimentos. Mas isso não é suficiente. Depois do desabafo, precisamos encontrar um meio de retomar a vida, recuperar a intensidade da fé, da coragem de ser. Não se engane! A coragem de retomar a vida depois de um susto não vem por palavrório, nem por verborragia, mas pelo ouvir, e ouvir com atenção as vozes ou a Voz que nos encontra sempre depois da tragédia, dos acidentes, dos processos tenebrosos nos quais estamos inseridos e não temos nenhum controle.

Calma! Não estou dizendo que, depois do susto e do desabafo, o que mais a gente precisa é ouvir uma “palavra amiga”. Não! Definitivamente não é isso que estou dizendo. Aliás, não tem nada mais entediante, deselegante e irracional do que um crente que bem ou mal intencionado tenta nos consolar com uma palavra do tipo: “Erga sua cabeça! Não fique assim! Você é filho do Rei! Você não é cauda! Diga: ‘Sou mais que vencedor!’”. O que estou dizendo é que, depois do susto, o que mais queremos é ouvir a voz de Deus. Só isso nos basta. Porém, quase sempre somos como Jó, oramos, falamos, esbravejamos, até a hora em que Deus diz: “Calma! Agora fique quieto! Escute-me tudo o que tenho para lhe dizer”.

11 comentários sobre “CALMA!

  1. Jonas, parabéns pelo texto. Gostei demais, ainda mais que saí recentemente de uma situação (não da mesma natureza que a sua), porém com as mesmas exigências. Concordo com você e acredito que a melhor coisa a se fazer nesses casos é parar. O surdo não consegue se ouvir, mas a tagarelisse também pode ser sintoma da nossa falta de vontade de nos ouvirmos, de ouvirmos os outros e de ouvirmos a voz de Deus. Digo no sentido da reflexão interior, por isso, devemos sim descansar em Deus e nos silenciarmos para podermos ouvir Sua doce voz. Mais uma vez parabéns!

  2. Ula !! Glória a Deus !!Fantástico !!! Estava pensando EXATAMENTE isso ontem, acredita ?!Realmente não há nada melhor do que um “calma !” de vez em quando. Já vi uma coisa também: uma pessoa histérica e a outra falando “calma!” e ela nada…sabe o que esta fez? Deu um tapa na cara pra ela parar de falar e ouvir.Deus abençoe, querido !!!Louvo a Deus pela sua vida!Bjão,

  3. Jonas, a Paz!Há uma frase que desconheço o autor, que diz “no silencio podemos ouvir o sussuro dos deuses”. Claro que para alguém que nasceu de novo o correto é ouviar a voz de Deus.Que possamos ouvir a voz do Mestre e reconhecê-lo no partir do pão.Graça e Paz!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s