O QUE ACONTECEU COM LUTERO?

Acho que ninguém negaria o fato de que The Openness of God [A abertura de Deus] é a obra seminal do teísmo aberto. Em 1995, a Christianity Today publicou uma série de artigos de teólogos de renome que apresentaram sua apreciação deste livro. Traduzo, a seguir, um desses artigos, escrito por Alister McGrath. Antes de você ler, só mais um detalhe: uma das reclamações que os defensores do teísmo aberto fazem a todos aqueles que apresentam qualquer manifestação contra a proposta do discurso aberto sobre Deus é a de que os críticos do teísmo aberto não leem os teólogos “abertos”. Porém, a pergunta que geralmente me faço, quando leio Pinnock, Sanders, Rice et alii, é “será que eles leram mesmo os teólogos do teísmo clássico?”. Em O que aconteceu com Lutero?, McGrath apenas confirmou minhas “suspeitas”. Agora sim… Boa leitura!
Os autores do The Openness of God [A abertura de Deus] desejam purificar o evangelicalismo das ideias do teísmo clássico e retornar àquilo que eles acreditam serem ideias mais bíblicas. Esse projeto não é novo, haja vista que um elemento integrante do programa teológico de Martinho Lutero era fazer exatamente isso (a rigor, o reformador queria livrar a teologia cristã da influência de Aristóteles). A teologia da cruz de Lutero representa uma abordagem clássica para este problema, coisa que os evangélicos europeus têm valorizado muito em sua tentativa de garantir que o evangelicalismo, ao retratar Deus, continue fiel às Escrituras. O profundo exame de Lutero sobre o sofrimento de Deus permanece firmemente atrelado às Escrituras, e, além disso, mostra um alto grau de sofisticação cristológica, que deixa muitos de nós admirados e sem fôlego.

No entanto, uma rápida leitura deste livro mostrou que os autores parecem não perceber que, muito antes deles, Lutero caminhou profundamente por essa via. Isso me assustou. Por que deveríamos confiar nessa convocação para modificar a tradição evangélica, se os próprios críticos não estão familiarizados com ela?

No capítulo de John Sanders, intitulado “Historical Considerations” [Considerações históricas], o problema se apresenta de modo mais evidente. Neste capítulo, Sanders afirma que o “sistema metafísico grego” encapsulou “o Deus descrito pela Bíblia”. Contudo, o argumento de Sanders provem e está baseado numa literatura secundária. Quando Sanders inicia suas considerações sobre Lutero, os resultados tornam-se desconfortavelmente claros. Toda sua abordagem de Lutero se fundamenta em uma referência a obra Teologia de Martinho Lutero, de Paul Althaus (publicada em 1963); em uma menção a um trabalho geral sobre a teologia da providência; e em uma única citação da obra de Lutero de 1525, a saber, A escravidão da vontade. O fato de que esta obra polêmica de 1525 seja considerada por alguns estudiosos de Lutero como fora de sintonia em relação as outras obras constitutivas sequer é mencionado. A propósito, nesta obra, Lutero contradiz explicitamente a afirmação de Sanders de que, segundo o reformador, não há nenhum Deus além do Deus revelado em Jesus”. E o que dizer, então, da teologia do absconditus em A escravidão da vontade? Há um silêncio total sobre a contribuição maciça de Lutero para uma teologia do sofrimento de Deus. Porém, essa teologia teve um enorme impacto na reflexão protestante moderna, como se vê nos escritos de Jürgen Moltmann e Eberhard Jungel, para citar apenas dois claros exemplos. Onde estão as referências à disputa de Heidelberg? Onde está a impressionante exposição de Lutero das deficiências de uma cristologia nestoriana, cujas implicações da encarnação para o sofrimento de Deus são tão profundamente exploradas?

Confesso que fiquei completamente indignado com essa falta de conhecimento acadêmico sobre Lutero e seus escritos. Por isso, observando o arminianismo radical de alguns dos colaboradores do livro, resolvi pesquisar se a teologia do sofrimento de Deus, tão presente nos hinos do notável arminiano Charles Wesley, tinha sido, de alguma forma, apresentada.

Na literatura inglesa, Charles Wesley é provavelmente o que mais se aproxima de Lutero não em relação a uma teologia do sofrimento, mas a uma teologia do Deus que morre. Tomemos, por exemplo, o belíssimo hino “E pode ser?”, com seus famosos versos “Amor gracioso! Como pode ser / Que tu, meu Deus, tivesses que morrer por mim?”. Esse pensamento está também expresso em outras partes deste mesmo hino, como aqui: “Todo este mistério! O imortal morre! / Quem pode explicar este estranho desígnio?”. Mas, enfim, Wesley não é sequer mencionado neste capítulo.

O livro The Openness of God nos convida a rejeitar uma compreensão clássica e evangélica em favor de outra coisa. Mas por que deveríamos abandonar essa tradição, quando, na verdade, é evidente que ela não foi apresentada de forma justa e ampla neste livro? O evangelicalismo moderno tem sido acusado muitas vezes de uma falta de familiaridade com as suas próprias raízes históricas e tradições. Curiosamente, este livro apenas confirma essa impressão.

Por Alister McGrath
Tradução de Jonas Madureira
Fonte: Christianity Today
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