O INÍCIO DA TEOLOGIA CRISTÃ

Não há dúvida de que a teologia cristã tem sua origem na pessoa e obra de Jesus Cristo. Por isso, qualquer teologia que se constitua sobre qualquer outro fundamento que não seja Cristo não pode ser reconhecida como legitimamente cristã. Por outro lado, o Messias não veio com o objetivo de entregar a humanidade mais um sistema teológico ou uma nova escola de pensamento filosófico. Pelo contrário, ele veio para anunciar as verdades do reino de Deus e entregar, sim, o seu corpo e sangue para redimir aqueles que nele creem. Se realmente é assim, então, como deveríamos entender o contraste entre o fato de que o próprio Cristo não elaborou nenhuma teologia nem escreveu tratados teológicos e o fato de que a teologia cristã tem sua origem na pessoa e obra de Jesus Cristo?

Para responder essa pergunta, precisamos primeiro apresentar uma distinção importante que aqui faremos entre “origem” e “início”. Por exemplo, quando nos referimos à “origem” de um determinado evento ou acontecimento, designamos quase que sempre a causa primeira do evento. Em contrapartida, quando nos referimos ao “início” de algum evento, na verdade, nos referimos a um determinado ponto, que é demarcado no tempo e na história, a partir do qual tal evento acontece. Por exemplo, podemos afirmar que a origem de nossa existência no mundo está em nossos progenitores ou, para sermos mais exatos, em Deus. Contudo, quando nascemos, iniciamos nossa existência no mundo em um determinado dia, hora e lugar. Nesse sentido, aquilo que é a nossa origem não pode ser confundido com aquilo que é o nosso início. Semelhantemente, podemos dizer que a teologia cristã tem sua origem em Jesus Cristo, sem com isso afirmar que Cristo tenha sido o primeiro teólogo ou que ele tenha iniciado de alguma forma a teologia cristã. Ou seja, a teologia cristã tem sua origem em Cristo, mas não inicia com ele.

Esse argumento, naturalmente, não ignora a necessidade que a teologia cristã tem de estar atrelada a pessoa e obra de Jesus Cristo. Muito pelo contrário, tal argumento sustenta que aquilo que dá origem a teologia cristã — Cristo e sua obra — é necessário para a própria constituição da teologia. Porém, isso não quer dizer que a pessoa e obra de Jesus devam ser reduzidas ao statusde marco histórico inicial da teologia. Fazemos essa distinção, porque cremos ser perigoso nivelar o discurso de Jesus ao discurso dos teólogos: é inegável que Jesus foi um verdadeiro mestre da palavra de Deus. Mas isso não significa que ele tenha sido um teólogo tal como geralmente concebemos. Ele sequer pretendeu nos entregar um tratado de teologia. Talvez esse seja um dos motivos pelos quais a comunidade cristã tem afirmado ao longo dos séculos que Cristo foi e continua sendo mais do que um teólogo ou uma teologia, ou seja, que além de ser a causa de ambos, ele é a Palavra de Deus encarnada, e, por isso mesmo, está acima de todas as coisas.

A partir desse pressuposto, afirmamos que o início da teologia cristã, pelo menos em termos históricos, só poderia ter acontecido após a ascensão de Jesus, e, obviamente, logo após o surgimento da igreja. Na verdade, a teologia deu seus primeiros sinais de vida, justamente quando a igreja começou: 1) a ser perseguida; 2) a ser intelectualmente ridicularizada; e 3) quando passou a sofrer a sedução das falsas doutrinas, que eram ensinadas por falsos mestres e por homens sem escrúpulos e que se autodenominavam apóstolos. Por isso, acredita-se que a partir da leitura dos evangelistas e demais escritores do Novo Testamento — i.e., daqueles que narraram não só a vida de Cristo, mas também a vida da igreja nascente —, é que podemos encontrar o contexto inicial da teologia ou do pensamento cristão.

Assim como Jesus, estes homens não pretenderam escrever tratados de teologia. Mas, ao contrário dele, escreveram evangelhos e cartas com inúmeras declarações teológicas sobre Cristo e sua obra. Portanto, ainda que não tivessem elaborado tratados teológicos, esses homens, de alguma forma, apresentaram suas convicções teológicas sobre a pessoa e obra de Cristo. Eles podem não ser teólogos “de fato”, mas, ao menos pelo modo como selecionaram, distribuíram e comentaram o material de que dispunham, eles acabaram agindo como teólogos “de direito”.

Esses escritores não estavam interessados em escrever teologia e sim narrativas sobre Jesus e sua igreja, bem como cartas que deveriam ser endereçadas a diversas igrejas, buscando fortalecer a fé dos cristãos, ensinando-os as verdades de Cristo. Essas narrativas e cartas foram consideradas, pelos primeiros cristãos, como parte das Escrituras. E isso foi um grande passo que a igreja deu para que todos — inclusive nós — pudéssemos conhecer a vida e obra de Jesus. Sem estes escritos não seria possível constituir uma teologia cristã.

Em suma, é indiscutível o fato de que o Novo Testamento é o contexto inicial da teologia cristã. Entretanto, como diz Alderi de Matos, “o Novo Testamento não deu de forma clara e direta, nem poderia dar, todas as respostas de que os cristãos precisavam” [1]. Somente a partir do século II, os cristãos sentiram uma maior necessidade de recorrer à tarefa da especulação teológica e filosófica. Eles precisavam estabelecer com o máximo de rigor possível as fórmulas doutrinárias centrais, uma vez que as heresias, vindas de todos os lados, comprometiam cada vez mais a unidade da igreja. Como não bastassem as heresias, os primeiros cristãos tiveram também que defender o cristianismo das acusações caluniosas que partiam das elites intelectuais e das autoridades romanas. Calúnias que por fim acabavam fomentando cada vez mais as perseguições. Essa tarefa de defesa da unidade da fé cristã e de estabelecimento de fórmulas doutrinárias é que deu origem a teologia cristã. No entanto, tal tarefa só foi desempenhada por outra geração de líderes da igreja. Uma geração de homens que merecidamente foram chamados de “pais da igreja”. Estes, de fato, foram os primeiros teólogos da história do pensamento cristão.

______
Notas

[1] MATOS, Alderi Souza de. Fundamentos da teologia histórica, p. 26.

2 comentários sobre “O INÍCIO DA TEOLOGIA CRISTÃ

  1. Prezado Jonas,Interessante sua síntese a respeito da evolução da teologia. Gosto sempre de apontar para um elemento importante. Que havia um substrato teológico muito importante no I século da Era Cristã. Refiro-me a revolução hermenêutica iniciada pelo movimento farisaico. O farisaísmo foi o primeiro movimento equivalente a uma “reforma”. As Escrituras estavam restritas ao sacerdócio do Templo, e graças aos escribas (soferim) houve um desencadeamento de cópias da lei, estas cópias era lidas em “escolas” (sinagogas) onde a população em geral teria acesso à discussão sobre as questões gerais da teologia bíblica. Esta popularização resultou em uma tradição hermenêutica (midráshica em termos hebraicos) que preparou o caminho para uma teologia que dialogasse com o mundo da racionalidade greco-romana. Tentativa que não era nova, já ocorria em Alexandria algum tipo de aproximação da tradição hermenêutica judaica com a forma de pensar ocidental. Neste sentido, penso que os fundamentos de uma tradição teológica sofisticada também tem dívidas com os métodos farisaicos de interpretação, basta dar uma olhada no tom “rabínico” de Irineu em seus embates teológicos.Parabéns!

  2. Caro Igor,obrigado por seu comentário. Ele, sem dúvida, eleva o nível da nossa discussão. Concordo plenamente com vc de que o horizonte do início da teologia deve ser ampliado, e que a pesquisa desse substrato teológico que a hermenêutica farisaica forneceu pode contribuir muito para o entendimento dos fundamentos da teologia cristã. Vou pesquisar mais sobre o assunto.Valeu pela dica, meu amigo!Abraços,Jonas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s