AFINAL, O QUE É “TOTALITARISMO”?

O termo “totalitarismo” foi cunhado pela filósofa judia-alemã Hannah Arendt (1906-1975). Apesar do uso irrestrito que se faz desse termo, convém resgatar o seu sentido original, pois muitos confundem totalitarismo com despotismo, tirania e ditadura, e, portanto, não conseguem compreender o que esse termo de fato significa.

Para dirimir essa confusão, é necessário compreender, antes de mais nada, o caráter inédito do totalitarismo. Isto é, o totalitarismo não possui precedentes nem na história antiga e medieval do Ocidente e nem há na história do Ocidente o testemunho de algum desdobramento do tipo “o totalitarismo surgiu da tirania”. Segundo Hannah Arendt, o totalitarismo é uma espécie nova e totalmente diferente de governo. Não é e nem poderia ser confundido com o governo de tipo tirânico, uma vez que não se sustenta apenas na arbitrariedade de um governante e em sua respectiva superioridade sobre as camadas populares. A distinção entre um governo meramente tirânico e um governo totalitário justifica-se exatamente pelo fato deste não operar sem a fundamentação de uma lei; justamente o oposto daquele, cuja marca é simplesmente a arbitrariedade.

Que leis são essas que “legitimam” o governo totalitário? O totalitarismo busca obedecer rigorosa e inequivocamente àquelas leis que Hannah Arendt chama de “leis da Natureza” ou “leis da História”. Ora, do ponto de vista totalitarista, essas leis são legitimamente superiores em relação às leis positivas. Se voltarmos alguns anos atrás, como sugere Arendt, de um lado, veremos Hitler fundamentando a sua doutrina da “raça pura” com base em supostas “leis da Natureza” e, do outro, Stalin edificando o seu materialismo histórico-dialético por meio de supostas “leis da História”. Ambos, subjugando as leis positivas de suas respectivas nações às suas próprias doutrinas, e, por isso, reduzindo o caráter fixo da lei positiva aos movimentos de uma particular Weltanschauung (cosmovisão).

Agora, por que usar Hitler e Stalin como imagens emblemáticas do governo totalitário? De acordo com Arendt, o nazismo e o comunismo tornaram-se exemplos categóricos de regimes totalitários por trazerem em si mesmos a característica elementar que marca precisamente a singularidade histórica do totalitarismo. Basta analisar mais de perto estes determinados regimes e veremos que a marca de sua singularidade se deve ao fato de que, além de criar instituições políticas inteiramente novas, esses governos totalitários destroem, ao mesmo tempo, todas as tradições sociais, legais e políticas de um país, substituindo o sistema partidário não apenas por uma ditadura unipartidária, mas por aquilo que Hannah Arendt chamou de “movimento de massa”. Ou seja, o totalitarismo possui o poder de transformar as classes em massas, estabelecendo, assim, uma sociedade completamente homogeneizada.

Como se dá este processo de homogeneização que marca a singularidade histórica do totalitarismo? Hannah Arendt argumenta que os regimes totalitários costumam adotar uma certa ideologia, como, por exemplo, o arianismo de Hitler que se fundamentava na teoria da evolução das espécies de Darwin ou o materialismo histórico-dialético de Stalin que se edificava sobre a teoria da mais-valia de Marx. O curioso é perceber que essas ideologias, além de se pautarem em uma suposta harmonia entre ciência e filosofia, baseiam-se também em movimentos de caráter evolutivo. Tanto o nazismo como o comunismo pressupõem uma evolução, seja da Natureza, seja da História. Nesse caso, o próprio termo “lei” perdeu o seu sentido, a sua força. O estatuto da lei não é mais o da imutabilidade, mas o oposto. Agora, as leis, consideradas máximas, mudam porque a Natureza está em constante evolução ou porque a História está em pleno desenvolvimento. Nisso, Hannah Arendt vê consequências drásticas e que não poderiam ter como resultado outra coisa senão o terror. Pois, que outro resultado poderia ser obtido a partir de uma situação em que as leis máximas de um povo perdem seu caráter de imutabilidade?

Além do terror, como uma espécie de chicote que domestica os homens, a fim de liberar as forças da Natureza ou da História, Hannah Arendt descreve outra fonte que alimenta o poder homogeneizante do totalitarismo, a saber, a ideologia desempenhada no mecanismo totalitarista. Em Interpretação e ideologias, Paul Ricoeur argumenta que um dos traços marcantes da ideologia é seu dinamismo. Em suas palavras: “ela depende daquilo que poderíamos chamar de uma teoria da motivação social”. Para Ricoeur, a ideologia é, para a vida pública, aquilo que é, para a vida privada, um motivo. Ora, o motivo é aquilo que justifica a união das massas e compromete o indivíduo com a coletividade. Portanto, a ideologia é uma motivação social que justifica e compromete um indivíduo com a massa. Justifica na medida em que assegura o caráter justo da ação; compromete na medida em que o cumprimento da ação busca a realização do motivo.

Ora, como a ideologia preserva seu dinamismo? Segundo Ricoeur, “toda ideologia é simplificadora e esquemática”. Salvo as divergências que existem entre Ricoeur e Arendt, pode-se afirmar que, nesse caso, Arendt concordaria com Ricoeur, uma vez que, para ambos, o pensamento ideológico tende a arrumar os fatos sob a forma de um processo absolutamente simples e esquemático; processo este que se inicia a partir de uma premissa aceita axiomaticamente e tudo o mais sendo deduzido dela. Outra congruência reside no fato de que ambos os pensadores veem nas ideologias um código interpretativo que incita os seres humanos a tomar a imagem pelo real, o reflexo pelo original. Contudo, a peculiaridade de Hannah Arendt está em associar o pensamento ideológico como uma fonte homogeneizante do totalitarismo. Isso lhe dá o direito de ver no código interpretativo de uma ideologia, não apenas uma hermenêutica da realidade, como afirma Ricoeur, mas uma mentalidade conspirativa em que “a realidade não é mais compreendida nos seus próprios termos”. Em suma, para Arendt, todo pensamento ideológico vai contra a realidade na medida em que a lógica de uma ideia tem o mesmo status do real.

Uma última correlação entre Paul Ricoeur e Hannah Arendt pode ser estabelecida a partir de uma expressão bastante interessante de Ricoeur: “a ideologia opera atrás de nós”. O que isso significa? Que a ideologia, como mentalidade conspirativa, substitui o pensamento, pois homogeneíza a mentalidade de uma comunidade que vê as individualidades se perderem na massa. Uma vez que as ideologias possuem a pretensão de explicação total, ou seja, tudo é explicado a partir de uma ideia, elas inibem automaticamente o pensamento da experiência e da realidade. Em Origens do totalitarismo, Arendt afirmou que

o perigo de trocar a necessária segurança do pensamento filosófico pela explicação total da ideologia e pela sua Weltanschauung (cosmovisão) não é tanto o risco de ser iludido por alguma suposição geralmente vulgar e sempre destituída de crítica, mas o de trocar a liberdade inerente da capacidade humana de pensar pela camisa de força da lógica de uma ideia que pode subjugar o homem quase tão violentamente como uma força externa.

Referências bibliográficas
ARENDT, Hannah. A dignidade da política: ensaios e conferências. Rio de Janeiro: Relume-Dumará.
_____. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras.
_____. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987.
RICOEUR, Paul. Interpretação e ideologias. Rio de Janeiro: F. Alves.

MANIFESTO À NAÇÃO BRASILEIRA CONTRA O TOTALITARISMO BOLIVARIANO

http://mediaservices.myspace.com/services/media/embed.aspx/m=56648013,t=1,mt=video
Professor João Ricardo Moderno lê o manifesto de repúdio ao totalitarismo bolivariano.

3 comentários sobre “AFINAL, O QUE É “TOTALITARISMO”?

  1. Muito bom, Jonas! Postei o link para este texto lá nos comentários do meu último post. Estou armazenando ali mais fontes para a compreensão do meu artigo na Ultimato, que recebeu críticas de pessoas que entenderam muito pouco do que eu quis dizer.É sempre bom vir aqui!Grande abraço!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s