TOMÁS DE AQUINO E A (IM)POSSIBILIDADE DO CONHECIMENTO DE DEUS

O texto a seguir é um artigo da monumental Suma de Teologia de Tomás de Aquino. Antes de ler o artigo propriamente dito, sugiro que se leia uma citação do ensaio de Otto Bird, intitulado “Como ler um artigo da Suma” (IFCH/UNICAMP, n. 53 – Julho, 2005, p. 7 e 8).

Bom estudo!

P.S.: Para os meus alunos de Filosofia, sugiro que leiam as indicações que o Bird faz da estrutura do artigo da Suma. Em seguida, tentem identificar tal estrutura no artigo 7 da questão 84 da Primeira Parte da Suma de Teologia (está logo abaixo das indicações de Otto Bird). Deixemos a compreensão do texto para um segundo momento. O mais importante, agora, é entender o método de exposição tomasiano.

Citação do ensaio de Otto Bird, “Como ler um artigo da Suma

“O artigo [da Suma] começa com a declaração de uma pergunta apresentada na forma de alternativa por meio da partícula utrum (“Se…”). São apresentadas, então, argumentos para os dois lados da alternativa. Diversos argumentos são dados para o lado oposto àquele que S. Tomás irá manter e, daí, serem eles frequentemente chamados de “objeções”. Geralmente, apenas um argumento em favor do outro lado é apresentado, sendo este introduzido pelas palavras sed contra (“Em sentido contrário…”). S. Tomás dá, então, sua própria resposta à questão proposta. Esta parte tem início com as palavras respondeo dicendum, que geralmente são traduzidas por “Em resposta…” ou “Cumpre dizer…”. Esta parte é chamada frequentemente de “corpo” do artigo. Finalmente, os primeiros argumentos apresentados são refutados como sendo contrários à posição de Tomás. Estas são suas respostas as “objeções”. Usualmente elas se aplicam apenas sobre as primeiras séries de argumentos, visto que na Suma o argumento sed contra na maioria das vezes coincide com as posições adotadas por S. Tomás. No entanto, há alguns casos em que ele também responde o sed contra do mesmo modo que aos argumentos do outro lado da alternativa (I. q. 14, a. 16; q. 17, a. 1; I-II, q. 85, a. 6)”.

SUMA DE TEOLOGIA I
QUESTÃO 84, ARTIGO 7

Se o intelecto pode inteligir em ato pelas espécies inteligíveis que tem em si, não se voltando para as imagens

QUANTO À SÉTIMA PERGUNTA argumenta-se da seguinte maneira. Parece que o intelecto pode inteligir em ato pelas espécies inteligíveis que tem em si, não se voltando para as imagens.

1. De fato, o intelecto torna-se em ato pela espécie inteligível pela qual é informado. Ora, o intelecto estar em ato é ele inteligir. Portanto, as espécies inteligíveis bastam para isto, a saber, que o intelecto intelija em ato, sem isto, a saber, que se volte para as imagens.

2. A imaginação depende mais do sentido que o intelecto da imaginação. Ora, a imaginação pode imaginar em ato, ausentes os sensíveis. Portanto, muito mais o intelecto pode inteligir em ato, não se voltando para as imagens.

3. Não há imagens dos incorporais, pois a imaginação não transcende o tempo e o contínuo. Se, portanto, o nosso intelecto não pudesse inteligir algo em ato senão voltando-se para as imagens, seguir-se-ia que não poderia inteligir algo incorpóreo. O que é patente que é falso, pois inteligimos a própria verdade, Deus e os anjos.

EM SENTIDO CONTRÁRIO está que o Filósofo [Aristóteles] diz no livro III Sobre a alma [7, 431 a. 16] que a alma nada intelige sem imagem.

EM RESPOSTA cumpre dizer que é impossível o nosso intelecto, de acordo com o estado da vida presente, no qual está unido ao corpo passível, inteligir algo em ato, senão voltando-se para as imagens. Isto aparece por dois indícios. Primeiro, porque, sendo o intetecto uma certa faculdade que não se serve de órgão corporal, de modo nenhum seria impedido no seu ato pela lesão de algum órgão corporal, se não fosse requerido, para o seu ato, o ato de alguma potência que se serve de órgão corporal. Servem-se, porém, de órgão corporal, os sentidos, a imaginação e as demais faculdades que pertencem à parte sensitiva. Donde se tornar manifesto que, para que o intelecto intelija, não apenas recebendo a ciência pela primeira vez, mas também usando a ciência já adquirida, requer-se o ato da imaginação e das outras faculdades. Com efeito, vemos que, impedido o ato da faculdade imaginativa pela lesão do órgão, como nos delirantes, e de modo semelhante, impedido o ato da faculdade memorativa, como nos letárgicos, o ente humano é impedido de inteligir em ato, mesmo naquilo de que adquiriu ciência previamente. Segundo, pois qualquer um pode experimentar em si mesmo o seguinte: que, quando alguém se esforça por inteligir algo, forma para si algumas imagens a modo de exemplos, nos quais como que examina o que se esforça por inteligir. Daí, vem também que, quando queremos fazer um outro inteligir algo, propomo-lhe exemplos, a partir dos quais possa formar para si imagens para inteligir.

A razão disto é que a potência cognoscitiva se proporciona ao cognoscível. Donde, o objeto próprio do intelecto angélico, que é totalmente separado do corpo, ser a substância inteligível separada do corpo, e por inteligíveis deste tipo, conhece o que é material. No entanto, o objeto próprio do intelecto humano, que é unido ao corpo, é a quididade ou natureza existente na matéria corporal; e pelas naturezas deste tipo das coisas visíveis, também ascende a algum conhecimento das coisas invisíveis. Faz parte, porém, da noção desta natureza que exista em algum indivíduo, o que não se dá sem a matéria corporal; assim como faz parte da noção da natureza da pedra que esteja nesta pedra e da noção do cavalo que esteja neste cavalo, e assim para os demais. Donde, a natureza da pedra ou de qualquer coisa material não poder ser conhecida completa e verdadeiramente, senão na medida em que é conhecida como existente no particular. Ora, apreendemos o particular pelo sentido e pela imaginação. Por isso, é necessário, para que o intelecto intelija em ato seu objeto próprio, que se volte para as imagens, para que se observe a natureza universal existente no particular. Se, porém, o objeto próprio de nosso intelecto fosse a forma separada, ou se as naturezas das coisas sensíveis subsistissem, não nos particulares de acordo com os Platônicos [a. 1], não seria preciso que nosso intelecto sempre, ao inteligir, se voltasse para as imagens.

AO PRIMEIRO argumento cumpre, portanto, dizer que as espécies conservadas no intelecto possível, existem nele a modo de hábito quando não intelige em ato, como foi dito acima [Q. 79, a. 6]. Donde, para que intelijamos em ato, não bastar a própria conservação das espécies, mas ser necessário que delas nos sirvamos conforme convém às coisas das quais são espécies, que são as naturezas existentes nos particulares.

AO SEGUNDO cumpre dizer que mesmo a própria imagem é uma semelhança da coisa particular; donde, a imaginação não ter precisão de alguma outra semelhança particular, como tem precisão o intelecto.

AO TERCEIRO cumpre dizer que os incorpóreos, dos quais não há imagens, são conhecidos por nós por comparação com os corpos sensíveis, dos quais há imagens. Assim como inteligimos a verdade pela consideração da coisa acerca da qual investigamos a verdade. Conhecemos, porém, a Deus, como diz Dionísio [Nomes divinos, cap. 1], como causa, por ultrapassamento e por remoção. Também não podemos conhecer as demais substâncias incorpóreas, no estado da vida presente, senão por remoção, ou alguma comparação com o que é corporal. Por isso, quando inteligimos algo do que é deste tipo, necessariamente temos de nos voltar para as imagens dos corpos, embora daquele algo não haja imagens.

TOMÁS DE AQUINO. Suma de Teologia: Primeira Parte/questões 84-89. Trad. Carlos Arthur R. do Nascimento. Uberlândia: EDUFU, 2004.

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